não sei se o que me falta é luz
ou paisagem
talvez um rosto de criança
que me levasse até à morte
sem para trás e sem vergonha.
talvez seja a ausência da música no modo como nos tocamos
a parecer o tempo que morre
e sopra já sobre o coração.
sento-me em frente ao espelho
o meu rosto olha-me de fora para dentro
até ser ele só que me pensa
uma aquietada modelo
que todos vissem
cénica e nua a servir a arte
um pouco assim como as bruxas
e também muitas putas
que depois de retratadas
davam santas de altar e matriz.
eu também dispo e visto,
e sei usar os gestos da civilização ocidental
para sair à rua e dizer que sim
mas desconheço a beatificação,
aquele modo antigo e seguro de caminhar
feito de recato e pai nosso
aquele mesmo modo
de quem sabia que enfim nos perdoa
às vezes o tempo
das horas que um ao outro emprestamos
para sermos impuros
e uma outra vez
fugirmos à morte.
domingo, 27 de setembro de 2009
sábado, 4 de julho de 2009
ilha
eu reivindico a ilha, a insularidade tópica lda, a ilha ainda sem ulisses ou regressos nem tordilhões darwinistas, reivindico a ilha de nossa de cada dia , a ilha passárgada e sem névoas onde não somos amigo do rei, mas o rei à espera de reinar.
a ilha no meio do mar, sem mapa e sem nordeste, aquela ilha inteira e azul que só vejo às vezes, lá muito por detrás de onde eu penso, a ilha em gestação, nubente e arfante, leito morfológico da nossa nostalgia de mortais. a ilha imorredoira e sem tempo, dos cavalos alados e todos os bestiários.
reivindico a ilha verbal, a ilha que de tanto dizê-la começa a recortar-se, geológica e terrestre, por entre as sílabas de pensá-la, insinuante e alfabética, a ilha.
a ilha no meio do mar, sem mapa e sem nordeste, aquela ilha inteira e azul que só vejo às vezes, lá muito por detrás de onde eu penso, a ilha em gestação, nubente e arfante, leito morfológico da nossa nostalgia de mortais. a ilha imorredoira e sem tempo, dos cavalos alados e todos os bestiários.
reivindico a ilha verbal, a ilha que de tanto dizê-la começa a recortar-se, geológica e terrestre, por entre as sílabas de pensá-la, insinuante e alfabética, a ilha.
domingo, 31 de maio de 2009
resumo de vida
usar os instantes e construir parágrafos, colar fotografias - montar três décadas em duas folhas a4 como se fosse uma estante sueca. incluir gostos e desgostos, aspirações e, sobretudo todas contradições. certezas, tão breves certezas. tenho o tom waits a cantar para mim e parece que que todas as histórias são minhas. ah, a ficção, não sei que resumo faça, ou em que cores pinte o embaraço de te dizer quem sou e como fui aqui chegando, sem saber o nome da tua rua.
a andar é que aprendemos e eu estou tantas vezes quieta.
lá fora é cidade e faz muito calor . já não tenho janelas sobre o mar nem caravelas. também eu perdi um império mas não me sinto um pequeno país. morreram-me as pessoas erradas e foi assim que aprendi a viajar sem olhar para trás como ulisses. tudo que ulisses fez foi olhar para trás. parece-me estranho que freud não tenha autopsiado ulisses.
nunca fiz um caminho. tudo que alcancei foram devaneios, ziguezagues e algumas declarações de irs.
a andar é que aprendemos e eu estou tantas vezes quieta.
lá fora é cidade e faz muito calor . já não tenho janelas sobre o mar nem caravelas. também eu perdi um império mas não me sinto um pequeno país. morreram-me as pessoas erradas e foi assim que aprendi a viajar sem olhar para trás como ulisses. tudo que ulisses fez foi olhar para trás. parece-me estranho que freud não tenha autopsiado ulisses.
nunca fiz um caminho. tudo que alcancei foram devaneios, ziguezagues e algumas declarações de irs.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
pluvial
não sei se há uma onomatopeia para chuva a cair nas vidraças, mas sei que tem chovido tanto que, como qualquer rapazinho, até os meus sonhos têm sido molhados.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
the company
ninguém no departamento sabe, mas além de estar verdadeiramente contente com o meu novo carimbo, que é vermelho e diz«confidential», a minha saia é mesmo muito sexy.
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