sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

speak, memory, vestais e nabokov post-mortem

há uns anos atrás, lembro-me de ficar a brincar de vestal domesticada, acender lumes dominicais que serviam para a preparação de infusões, sempre tomadas cerimoniosamente, com gestos cuidados e solenes que inventava com o propósito de sacralizar a passagem. durante esses domingos, abrigados pelo sempre presente rumor do mar, lia como uma sonâmbula, deitada no chão, por entre almofadas, como uma otomana reminiscente. o meu cão dormia ao lado, respeitador dos grandes segredos.

foi nesses domingos sonâmbulos que li a correspondência de durrel e henry miller e o quarteto de alexandria. todos os primeiros domingos de cada mês, havia uma feira de usados tão perto da casa minúscula onde vivia, que era como se a feira fosse o meu quintal. dessa feira trouxe muita matéria dominical.

de uma das vezes, encontrei speak, memory de nabokov, na outra margem da memória, tradução portuguesa da difel. tal como muitos dos outros livros comprados assim, podemos ser surpreendidos pelos indícios de quem já os possuiu - e tenho quase a certeza de já ter lido, ou visto em algum filme, um coleccionador de dedicatórias amorosas em livros de alfarrabista.
neste nabokov, encontrei uma cinta de avença do secretariado diocesano da pastoral juvenil (diocese de portalegre e castelo branco, rua actor taborda, 90), dirigido a um grupo de jovens do crato.

talvez servindo como marcador de página, uma imagem de santa ana, uma daquelas imagens que a minha avó chama «santinhos» e servem aos fins mais portáteis da fé.

de nabokov, soube-se muito recentemente que será publicado, em 2009, uma obra póstuma, deixada inacabada e que o próprio teria ordenado que fosse destruída. a mulher não foi capaz de o fazer e a obra, depositada numa caixa-forte convenientemente helvética, passou para as mãos e decisão do filho de nabokov que, recentemente, anunciou a intenção de publicá-la. em 2009. uma vez mais, a polémica imprimatur est/non est das obras póstumas.
carregando na imagem, a explicação made in bbc:
há um tacto especial no arranjo floral de colocar os dedos vegetalmente, esperando, sonolentos. os dedos enredam-se, polvos digitais, numa sombra de encruzilhadas sobre o peito. recuam, dobram-se, humilham-se por nós. fálicos e culpados instrumentos de precisão, radares de distância, guardadores de silêncio e acusação.
as mãos são a linguagem que dança e os dedos o ensaio de sermos movimento.



domingo, 16 de novembro de 2008

filamento

não sei o que é a noite, nem este lado errado de estar a ouvir o mundo quando o mundo nada diz. as ruas calaram-se por respeito ao sol. temos tanta meteorologia, tanta hermenêutica. o mundo inteiro, até às mitocôndrias, é um capítulo hermenêutico. estou à janela. os carros que passam são uma tosse à saúde da minha paz farmacêutica.
os meus olhos estão cansados e, se me cansam os olhos, adormece-me o pensamento.
afinal, estar acordado é dormir sem o corpo e o corpo é feito de noite.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

30

all you need is aretha, aretha is all you need.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

a vida a cor de rosa

uma das coisas mais metafísicas na vida de uma mulher é saber quando algo nos comove moralmente ou apenas hormonalmente.

domingo, 21 de setembro de 2008

contas à vida

o meu coração deverá vir a ter aproximadamente mais 39.945 600 sístoles e diástoles, ao longo deste ano.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

não era a sério, era assim quase a fingir. agora já não faz mal, parecemos todos soldadinhos de chumbo, somos todos de brincar, mas não sabemos rir.
e depois da história acabar é que acendem as luzes? nunca entendi esta maneira errada de voltar. já é tarde e eu devia estar a dormir, dizem as boas regras que nunca cumpro. só o dizer bom-dia é uma regra bonita. e também outras coisas como não pisar as flores e ser gentil com os velhos.
o dia que eu mais gostei do mundo foi quando desenhei um arco-íris na parede do meu quarto. claro que a minha família não percebeu nada e decretaram-me um castigo a cinzento.
sempre quis saber qual exactamente a cor do vazio. às vezes fecho os olhos com muita força, penso que assim é vazio, mas estou só a ver para dentro do que não vejo e depois tudo isto me confunde e nunca sei exactamente onde estou, se existo de fora para dentro, se a pele começa para o lado de fora ou para o lado de dentro.
se a pele começa para fora o mundo é tão perto que assusta. mas se a pele começar para dentro podemos perder-nos e ficar tão sozinhos que perdemos a voz.

terça-feira, 15 de julho de 2008

anamnese

o tipo de acordo feito com o passado pode ser tão devastador como um acidente vascular cerebral. de tanto te querer lembrar, esqueci-me como eras de verdade. de memória passaste a ficção e daí para a irrelevância.

lavandaria

as ruas ficaram perdidas dos mapas e a cidade arrumou-se, límpida como nunca antes.
a nós sobra-nos apenas a roupagem dos exilados. as malas estão repletas, palavras recolhidas e a salvo de segredos inconfessáveis, ínfimas coisas que nos despovoam do grande e universal sentido que nunca tivemos.
é tão fácil ser incorrupto quando a matéria de que somos feitos é só cansaço.